domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Sarcosina e o Câncer de Próstata

Saiu na última Veja (edição 2100, 18/02/2009), página 96, a matéria Uma Desculpa a Menos, abordando a recente publicação de um estudo que revela que a presença de altas concentrações de sarcosina (veja a definição da molécula na wikipedia) na urina pode ser um sinal importante da presença de tumores prostáticos e, principalmente, sua agressividade. Mais ainda, a sarcosina pode ter um papel ativo na progressão da doença, o que a torna mais um alvo terapêutico na pesquisa de cura para a doença. Assim, este é um achado impactante, apontando a possibilidade de revelar importantes aspectos diagnósticos e terapêuticos (não é à toa que foi publicado na revista Nature - Metabolomic profiles delineate potential role for sarcosine in prostate cancer progression Nature 457, 910-914, 12-02-2009).

Ao procurar maiores referências na internet, encontram-se textos instigantes a respeito de como foi conduzido o estudo, e o que os resultados significam, e especialmente, a matéria original, que dá uma dimensão maior à leitura. A reportagem de Veja foi atualizada, bem direcionada, e superficial. Esta superficialidade não é necessariamente perniciosa: textos muito elaborados são em geral enfadonhos, espantando o leitor. Contudo, ao publicar uma matéria baseada em uma reportagem, e ao citar inclusive um dos autores do estudo, Christopher Beecher, seria no mínimo correto ter feito a citação do estudo publicado na nature, o que permitiria ao leitor ter acesso mais facilitado a maiores informações.

De uma revista de alcance público não se espera maior aprofundamento de uma matéria como esta, mas a falta de citação do artigo gerador da matéria torna seu relato incompleto.

Veja a matéria da Folha sobre o assunto, no dia da publicação da Nature: Urina pode indicar fase de câncer de próstata

Ali tem, inclusive, um texto mais elaborado tratando de descrever a metabolômica, espetacular ramo da ciência baseado em laboratório, que promete muito avanço na compreensão das doenças, bem como sua prevenção, diagnóstico e tratamento. Os frutos da metabolômica já estão sendo colhidos.

Toda esta movimentação científica faz crer que, em um futuro não muito distante, um laboratório clínico vai oferecer uma lista diferente de exames de bioquímica clínica básica. Vejamos o estudo acima: nele foram utilizadas 110 amostras de sangue, 110 amostras de urina, e 46 amostras de tecido porstático. Nelas, foram analisadas em torno de 1100 diferentes produtos metabólicos, de onde se destacaram 10 compostos mais presentes em amostras provenientes de pacientes com câncer de próstata. Destes, a sarcosina foi apontada como o marcador mais promissor de doença, por se apresentar elevado em um tipo de amostra não invasiva, a urina.

A partir disto, realizaram mais investigações utilizando a sarcosina, inclusive com a comprovação de que linhagens celulares cancerosas depletadas da enzima glicina-N-metil transferase, que converte a glicina em sarcosina tinham sua capacidade de invasão atenuada. Por outro lado, a adição de sarcosina, ou bloqueio da enzima que a degrada, o que aumentaria sua concentração no meio, induzia ao desenvolvimento de características de agressividade, mesmo em linhagens celulares prostáticas benignas.

A confirmar o achado, este será um marcador urinário incorporado à rotina clínica, desde que duas condições ocorram: capacidade metodológica de detecção de moléculas pequenas, e condição pré-analítica de tratamento de amostras, já que as concentrações podem estar sujeitas a uma série de fatores relacionados à estabilidade do analito na amostra, bem como a redução de possíveis interferentes às reações, já que a urina apresenta composição extremamente variável entre diferentes indivíduos.

Dê uma olhada em um laudo exemplo do laboratorio Metametrix, com um exemplo de laudo metabolômico. Este é o resultado de um exame cuja maioria das informações não tem sentido aparente, e é provável que os avanços metabolômicos indiquem analitos para serem avaliados individualmente em situações clínicas distintas.

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